sábado, 17 de julho de 2010

Uma nova Mulher - Marina Colasanti

" Um diário é um amigo? Uma companhia? Também. Mas é sobretudo a duplicação da gente mesmo, espelho que não se apaga quando o rosto se retrai ou muda, álbum de retratos que conserva muito mais que um belo sorriso e a paisagem de fundo. Quieto, compreensivo, calmo, o diário está ali, aberto e limpo. Oferecendo seu espaço, no qual você vai desenhar a sua vida e ele apenas... receber. Ele não tem recriminações a fazer, ele não diz que a culpa é sua, ele não encosta dedos na ferida. Como uma cama, como um mar, ele recebe. Você escreve muito se a emoção é forte, vai e volta e repete e repisa o mesmo assunto. Ninguém conta seu tempo, ninguém conta suas páginas. Você pode escrever até a mão cansar, até a alma aliviar. Você pode escrever e escrever e escrever. Ele aceita. E quando não quiser escrever mais, é só fechar e guardar o diário que ele mais nada exigirá. Não me diga que não tem o que contar. Você é o centro do seu universo, nada é mais importante do que aquilo que lhe diz respeito. Isso é que faz o encanto do diário. Se fosse usado apenas para registrar a queda do governo ou a evolução dos projetos orbitais, seria desnecessário, porque para isso já existe a imprensa, os arquivos, os registros da memória nacional. O diário serve justamente para conservar o pequeno acidente humano e individual, sua discussão com um amigo, o namoro lancinante, a dúvida sobre a roupa para usar naquela festa... O diário serve para conservar você. "

Ah... Querido Diário!

3 comentários:

Anônimo disse...

Adoro esse texto!!!
Quantas coisas com as quais a gente se acostuma e não deveria...

Bjão
Bia

Eu nunca disse adeus.. disse...

Verdade.
Foi até por esses motivos que fiz um blog.
Pra conservar um pouco do que sou o do que penso.
Para o resto já há a imprensa.
Pra que dar mais importância ao resto se é bem melhor ser importante pra si mesmo. Fuii

Amanda Vieira Borges disse...

Acredito que os maiores erros que andamos cometendo, ou cometemos, é deixar que se perca o nosso próprio valor, deixar de ser o que somos, e se conformar com coisas que na verdade não estão certas.