sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Vendedor de Passados - José Eduardo Agualusa IX

" A minha mãe estava sempre ao meu lado, uma mulher frágil e feroz, ensinando-me a recear o mundo e seus perigos inumeráveis.
- A realidade é dolorosa e imperfeita -, dizia-me: - e essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos.
Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que existe.
Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.
A minha mãe! A partir de agora direi apenas, A Mãe.
Imaginem um rapaz correndo de moto numa estrada secundária. O vento bate-lhe no rosto. O rapaz fecha os olhos e abre os braços, como nos filmes, sentindo-se vivo e em plena comunhão com o universo. Não vê o caminhão irromper do cruzamento. Morre feliz. A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos. "

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