sábado, 30 de abril de 2011

Quero - Carlos Drummond de Andrade

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo!

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca
me amaste antes.

Se não disseres urgente repetido
Eu te amo amo amo amo amo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

NOVIDADE! - \o/

Olá galera, queria deixar aqui uma super novidade pra vocês!




Aconteceu o lançamento do livro 'Tudo que é sólido pode derreter' de Rafael Gomes. Enquanto a Ioiô Filmes, em parceria com a TV Cultura, começa a produção da 2ª temporada da série, a editora Leya lançou a versão literária da 1ª temporada, que foi sucesso absoluto na TV e na internet!


O livro, que é baseado na série de TV, que narra o cotidiano adolescente de Thereza, uma garota de 15 anos que precisa estudar literatura para a escola, mas como todo adolescente, passa por uma fase de crise em sua vida. Thereza descobre nos livros um caminho para seu universo particular, já que eles trazem algumas respostas (ou mais dúvidas) à garota e ajudam-na a lidar com seus medos e alegrias, a amadurecer, refletir e sonhar. A cada capítulo uma nova obra, um novo desafio, uma nova descoberta. Machado de Assis, Gil Vicente, José de Alencar, Fernando Pessoa... O caminho da literatura que se entrelaça com esse momento tão delicado da vida.



Pra quem não conhece, eu RECOMENDO!


terça-feira, 26 de abril de 2011

Me contam

Garota: - Meu namorado AS VEZES é perfeito!



¿A veces?

Me contam.

Garota: - Bonito seu amigo, como é o nome dele?!
Garoto: - Lucas
Garota: - Estiloso. Ele é gay?!
Garoto: - Não...
Garota: - Hum...Mas namorada ele tem...
Garoto: - Não.
Garota: - Ah! então ele usa droga ...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector VI

(...)

Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo - para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia. "

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector V

Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.

Dar a mão a alguém foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer - nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior - muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono. E quando mesmo assim não tenho coragem, então eu sonho.
Ir para o sono se parece tanto com o modo como agora tenho de ir para a minha liberdade. Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar. Essa coisa corajosa que será entregar-me , e que é como dar a mão à mão mal-assombrada do Deus, e entrar por essa coisa em forma que é um paraíso. Um paraíso que não quero!
Enquanto escrever é falar vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão.
Oh pelo menos no começo, só no começo. Logo que puder dispensá-la, irei sozinha. Por enquanto preciso segurar esta tua mão - mesmo que não consiga inventar teu rosto e teus olhos e tua boca. Mas embora decepada, esta mão não me assusta. A invenção dela vem de tal ideia de amor como se a mão estivesse realmente ligada a um corpo que, se não vejo, é por incapacidade de amar mais. Não estou à altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira. E como imaginar um rosto se não sei de que expressão de rosto preciso? Logo que puder dispensar tua mão quente, irei sozinha e com horror. O horror será a minha responsabilidade até que se complete a metamorfose e que o horror se transforme em claridade. Não a claridade que nasce de um desejo de beleza e moralismo, como antes mesmo sem saber eu me propunha; mas a claridade natural do que existe, e é essa claridade natural o que me aterroriza. Embora eu saiba que o horror - o horror sou eu diante das coisas.
Por enquanto estou inventando a tua presença, como um dia também não saberei me arriscar a morrer sozinha, morrer é do maior risco, não saberei passar para a morte e pôr o primeiro pé na primeira ausência de mim - também nessa hora última e tão primeira inventarei a tua presença desconhecida e contigo começarei a morrer até poder aprender sozinha a não existir, e então eu te libertarei. Por enquanto eu te prendo, e tua vida desconhecida e quente está sendo a minha única íntima organização, eu que sem a tua mão me sentiria agora solta no tamanho enorme que descobri. No tamanho da verdade?

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector IV

(...)
Não. Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se a si próprio.

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector III

(...)
" Cedo fui obrigada a reconhecer, sem lamentar, os esbarros de minha pouca inteligência, e eu desdizia o caminho. Sabia que estava fadada a pensar pouco, raciocinar me restringia dentro de minha pele. Como pois inaugurar agora em mim o pensamento? e talves só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão. "

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Professor Godinho

" Os opostos se atraem, mas se as pessoas são extremamente diferentes
a convivência tende a ficar insuportável. "

Pastor Edson

" Deus é muito mais do que a gente pode imaginar, porque a mente humana é limitada,
mas Deus é infinito! "

terça-feira, 12 de abril de 2011

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector II

Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for diante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que eu nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar. Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia a grande esforço de construção que era viver. A ideia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre? Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê. Ontem no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização? E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se devia dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal e havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.
(...)

terça-feira, 5 de abril de 2011

Você já era - Natalia Mallo

Você era um colírio

Pros meus olhos.

Pedi duas gotas, só duas gotas

E devolvi em lágrimas.

Você era a cara do meu destino,

E não passou de um pedaço de mal caminho.

Você tinha tudo pra ser minha fonte de inspiração,

E virou a canção

Das escolhas erradas.

E virou a canção

Das escolhas erradas

Das escolhas erradas

Das escolhas... erradas!


Você era o meu parque de diversões,

E acabei levando trabalho pra casa.

Você tinha tudo pra ser minha fonte de inspiração,

E virou a canção

Das escolhas erradas.

E virou a canção

Das escolhas erradas

Das escolhas erradas

Das escolhas... erradas!

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector I

- - - - - - estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como vivi, vivi outra? A isso quereria chamar de desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector


" A POSSÍVEIS LEITORES


Este livro é como um livro qualquer.


Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas


por pessoas de alma já formada.


Aquelas que sabem que a aproximação,


do que quer que seja, se faz gradualmente


e penosamente-atravessando inclusive


o oposto daquilo que se vai aproximar.


Aquelas pessoas que, só elas,


entenderão bem devagar que este livro


nada tira de ninguém.


A mim, por exemplo, a personagem G.H.


foi dando pouco a pouco uma alegria difícil;


mas chama-se alegria. "


CL