segunda-feira, 20 de junho de 2011

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector XVI

" - Não me abandones nesta hora, não me deixes tomar sozinha esta decisão já tomada. Tive, sim, tive ainda o desejo de me refugiar na minha própria fragilidade e no argumento astucioso, embora verdadeiro, de que meus ombros eram os de uma mulher, fracos e finos. Sempre que eu havia precisado, eu me escusara com o argumento de ser mulher. Mas eu bem sabia que não é só mulher que tem medo de ver, qualquer um tem medo de ver o que é Deus.

Eu tinha medo da face de Deus, tinha medo de minha nudez final na parede. A beleza, aquela nova ausência de beleza que nada tinha daquilo que eu antes costumava chamar de beleza, me horrorizava.

- Dá-me a tua mão. Porque não sei mais do que estou falando. Acho que inventei tudo, nada disso existiu! Mas se inventei o que ontem me aconteceu - quem me garante que também não inventei toda a minha vida anterior a ontem?

Dá-me a tua mão. "

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